O apóstolo Paulo agora, continua a nos ensinar em cima do novo modo de pensar e de agir (corpo e mente), em relação ao Estado, em relação a lei e a nosso tempo presente. É nisto que iremos meditar.
“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmo condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido; a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto, a quem respeito, respeito e a quem honra, honra. A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçaras, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor; E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no princípio cremos. Vai a alta noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne do tocante às concupiscências.” (Rom. 13.1-14)
Os versículos que a seguir estudaremos, o apóstolo Paulo demonstra como os cristãos de mente renovada lidam com o Estado, com sua cidadania, com a lei e com o próximo, conhecendo o tempo em que vivem.
Não nos esqueçamos das discussões anteriores, onde o apóstolo nos forneceu inúmeros exemplos de como lidar conosco, com o próximo e com nossos inimigos. Agora, ele nos ensina a como lidar com a vida política e social, especialmente com nossos legisladores e magistrados.
Com o reconhecimento do cristianismo no convívio judaico, Paulo expressa o princípio básico das relações do crente com o Estado, que é a submissão às autoridades porque são instituídas por Deus. O governo humano, portanto, é estabelecido por ordenança divina e os cristãos, acima de todos, devem obedecer às leis, pagar impostos e respeitar as autoridades.
Vejamos:
“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmo condenação; porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela.” (Rom. 13:1-3)
Segundo Stott, existe ainda nos dias hoje alguma confusão a respeito da autoridade citada por Paulo neste texto. A princípio, teólogos debatiam se a autoridade referendada no texto dizia respeito a mesma autoridade que Paulo se referiu em muitas outras oportunidades, tais como principados, potestades, poderes dominadores e autoridades.
Stott, citando Cullmann demonstra alguma imprecisão quanto ao posicionamento:
“Segundo escreve Cullmann, não há duvida que os poderosos desta era referidos em 1 Coríntios 2.8, – que se tivessem entendido o mistério da sabedoria de Deus “não teriam crucificado o Senhor da glória – eram ao mesmo tempo “essas forças e poderes invisíveis” e os seus “agentes efetivos, a saber, dominadores da terra, os administradores romanos da Palestina”. (Stott, pag. 406 – A mensagem de Romanos)
Contrariando, Stott conclui sua posição da qual participo:
“O Novo Testamento não nos supre “prova alguma que suporte o argumento de que as forças espirituais do inimigo, depois de subjugadas, foram novamente comissionadas a fim de prestarem um serviço positivo a Cristo”.
Continua:
“Em nenhum outro lugar do Novo Testamento se atribui a crucificação a seres celestiais; ela é sempre atribuída a dominadores humanos.” ….. “O que deve determinar significado de exousiai em Romanos 13 é o seu próprio contexto e não as diferentes maneiras como é usado em outros lugares.”
…..
“Conclui-se, portanto, que a frase “as autoridades governamentais” de Romanos 13.1 refere-se ao estado, juntamente com seus representantes oficiais.” (Stott, Pag. 410)
Superada a celeuma, passamos ao texto:
Paulo é categórico em sua ordem de que os cristãos devem sujeitar-se às autoridades governamentais. Em seguida, fundamenta sua ordem, afirmando que todas as autoridades que existem vem de Deus e que aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu.
Stott ensina”
“Portanto, o estado é uma instituição divina. Os cristãos não são anarquistas nem subversivos.”….. “Não se pode pensar que ele está dizendo que todos os Caligulas, Herodes, Neros e Domícios da época do Novo Testamento, assim como todos os Hitlers, Stalins, Amins e Saddams dos nossos dias foram pessoalmente designados por Deus, que Deus é responsável pelo seu comportamento ou que em nenhuma circunstância se pode resistir à autoridade deles.”(Stott, pag. 412)
Russel Shedd ao comentar este capítulo nos dá importante ensinamento:
“E se essa autoridade for injusta e contrária à consciência cristã? Este problema não é tratado aqui, mas a resposta é clara: “antes importa obedecer a Deus do que aos homens”, citando Atos 5:29 cf Mc 12.17. O Estado só pode exigir obediência dentro dos limites pelos quais foi instituído.”(Shedd, pag. 1600, Bíblia de Estudo)
Em minha profissão já desenvolvi alguns estudos direcionados a comunidades Eclesiásticas. Observo, então, o grande desafio que a igreja contemporânea terá pela frente ao se deparar com a “evolução” da vida em sociedade, que sob o pretexto de buscarem a maldita felicidade, atropelam todos os valores estabelecidos por Deus, sem pensar no que seu atropelo trará como conseqüência a humanidade.
O Brasil vem sofrendo inúmeras pressões, sobretudo no campo da homossexualidade, da busca desenfreada pelo prazer e pelo democracia do jeitinho.
Do fundamentalismo ao liberalismo protestante. Do judaísmo ao secularismo. Como conviver com estas realidades, todas legisladas e amparadas por leis feitas por autoridades constituídas por Deus. (?)
Alexander B. Bruce, pastor escocês, em suas imperdíveis lições a respeito das lições de Jesus, nos ensinou:
“O caráter apostólico, em resumo, deve combinar liberdade de consciência, grandeza de coração e uma mente esclarecida, e tudo no mais alto grau.” (A.B. Bruce, Treinamento dos Doze, pag. 21, Ed. Arte Editorial.)
O que se observa na atualidade são cristãos que não procuram combinar estas importantes recomendações de Bruce, não tem liberdade de consciência, não tem grandeza de coração e em regra, tem mente empedrada, ao contrário do que nos recomendou o apostolou.
O que temos observado no Brasil e temos observado cristãos atônicos, já foi experimentado nos EUA’s:
“Dois grupos, vamos chamá-los de liberacionistas e tradicionalistas, lutaram pela alma da nação numa guerra não muito civil. A guerra foi o sinal mais óbvio de que os americanos não compartilhavam mais as mesmas opiniões sobre a boa sociedade, nem tinham mais a mesma idéia de patriotismo, código de moralidade ou fé religiosa.
Ambos os grupos olhavam para o mesmo país, mas viam coisas diferentes. O último quarto do século XX trouxe as facilidades da lei do divórcio, a legalização do aborto, o fim da censura, e uma nova tolerância em relação a “estilos de vida alternativos”. A elite americana acadêmica, artística e da mídia – muitas vezes, chama de Nova Classe – consideraram esses acontecimentos grandes avanços para a liberdade e dignidade humana. Mas a outra metade da nação olhava e via decadência moral, degeneração social e declínio nacional.
Os tradicionalistas sustentavam que é a verdade que liberta homens e mulheres, a verdade transmitida pelas tradições, crenças e livros judaico-cristãos. Esses valores provêem a base da verdade moralidade que, por sua vez, deve servir de fundamento para leis legítimas e uma boa sociedade. Afinal, assim é que a America deveria ser.
As leis americanas, contudo, estavam cada vez mais enraizadas numa moralidade nova e secular que sustentava, como observou um comentarista, que homens e mulheres “devem criar seu próprio código moral, que toda atividade sexual voluntária é moralmente neutra e legalmente permissível, que o aborto é um direito da mulher, que a pornografia, assim como a beleza, está nos olhos de quem vê, que suicídio e eutanásia são, em algumas circunstâncias, lógicos, legítimos e humanos” e que se um homem deseja distorcer sua mente com drogas, é assunto que só a ele compete.” (Shelley, Bruce L., Historia do Cristianismo, pag. 530, Ed. Shedd Publicações)
Os cristãos americanos fizeram naquela época o mesmo questionamento que a igreja brasileira tem feito. Temos mesmos que aceitar homossexuais em nossas igrejas?? Temos mesmo que se adaptar a recente decisão do Supremo Tribunal Federal, que acabou por reconhecer a união estável entre pessoas do mesmo sexo??
Como aconteceu em outros tempos, os cristãos americanos reagiram às mudanças culturais. Uns preferiram resistir às mudanças e outros, decidiram se adaptar a elas.
Não faltaram oposições desde o governo de Ronald Reagen até Bush. A história respondeu e continua respondendo, quem viver verá. É por isto que participo da opinião de que, os cristãos devem entender o sermão profético apontado em Mat. 24:15-18 e Mc 13:15-19, pedindo a Deus, em oração, que regule e abrevie o tempo, para que mais pessoas possam chegar ao conhecimento da verdade.
Em verdade, até em Jesus cumpriu-se as escrituras. Mesmo dizendo: - “Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima”, o próprio Jesus foi sujeito as autoridades.
Pilatos, como nos dias de hoje, fez mau uso da autoridade para condenar Jesus, o Cristo, não obstante, deixou de mudar o curso da história para revelar na submissão o Cristo ressurreto. Amém.
Por isto não devemos apelar para rebelião, do contrário, traremos condenação a nós mesmo, pois somos o povo que promove a paz.
Paulo sabia muito bem das possibilidades da justiça falhar, como aconteceu com Jesus, contudo, ao afirmar que as autoridades enaltecem o bem e pune quem pratica o mal, o apóstolo está afirmando o ideal divino, não a realidade humana. (Stott, pag. 412)
Como vimos nos comentários de Shedd, a exigência de Paulo com referência à submissão as autoridades não é absoluta.
Stott conclui:
“Nós devemos submeter-nos até o exato momento em que a obediência ao estado passa a implicar em desobediência a Deus. Mas se o estado exige aquilo que Deus proíbe, ou então proíbe o que Deus ordena, então, como cristãos, nosso dever é claro: resistir, não sujeitar-nos, desobedecer ao estado a fim de obedecer a Deus.” (Stott, pag. 414)
Enfim, Ed René Kivitz oferece importante recomendação para os cristãos de hoje:
“As regras do jogo precisam ser mudadas, e todos e cada um dos cristãos devem atuar contribuindo para tais mudanças. Mas, enquanto não mudam, que sejam respeitadas. Isso é democracia. Isso é respeitar o estado de direito. Isso é ser cidadão. Qualquer que se recuse a dar a César o que é de César é réu de sublevação, conspira contra a ordem social e compromete o desenvolvimento e o progresso da sociedade rumo à liberdade responsável de seus cidadãos e suas instituições. Qualquer um que se submeta cegamente ao César de ocasião e perpetue as regras que promovem a injustiça e a impunidade, a usurpação do direito e o desrespeito à dignidade humana é réu de traição do Reino acima de todos os reinos, a saber, o Reino de Deus.” (Outra espiritualidade, pag. 236)
Prossigamos, pois, procurando o equilíbrio que o Espírito Santo oferece, para aplicar no modo e no tempo preciso.
“É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido; a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto, a quem respeito, respeito e a quem honra, honra.” (Rom. 13:4-7)
Stott nos ensina:
“Quem presta serviços ao estado como legislador, funcionário público, magistrado, policial, assistente social ou cobrador de impostos é tão “ministro de Deus” quanto aqueles que servem à igreja como pastores, mestres, evangelistas ou administradores”. (Stott, pag. 416)
As autoridades estão a serviço de Deus. Como ressaltado, Paulo evidencia um ideal divino e não uma realidade humana, isto deve ficar claro.
A autoridade é serva de Deus para o seu bem e serva de Deus para punir o mal. A função do estado é promover e recompensar o bem e impedir e punir o mal. Portanto, devemos se sujeitar as autoridades, não apenas por causa da possibilidade de punição, mas por uma questão de consciência. E sabemos que nossa consciência é nosso árbitro.
Não devemos na condição de servidor público aplicar a lei aos nossos inimigos e interpretá-la para nossos amigos, como temos observado no cenário político, social e Eclesiástico.
Aqueles que fazem as leis devem se ocupar em prestigiar as característica do bom legislador deixadas por Jean Jacques Rousseau, em sua obra, O Contrato Social:
“Necessidade uma inteligência superior que visse todas as paixões humanas e não provasse nenhuma delas; que não tivesse relação com nossa natureza, mas que a conhecesse profundamente; cuja felicidade não dependesse da nossa, mas que quisesse se ocupar da nossa; …. conclui: Haveria a necessidade de deuses para dar leis aos homens”.
Stott finaliza:
“É por isto também que vocês pagam impostos, pois as autoridades estão a serviço de Deus, dedicando todo o seu tempo a esse trabalho.”….. “O cristão consciente submete-se à autoridade do estado, honra os seus representantes, paga os seus impostos e ora pelo bem estar do seu povo.”(Stott, pag. 419/420)
Stott, portanto, conclui:
“Romanos 13 começou com uma importante orientação sobre como nós podemos ser bons cidadãos, (1-7) e relacionar-nos bem com os outros (8-10); e termina dizendo o porquê de agirmos assim. Nada poderia motivar-nos tanto a cumprir esses deveres quanto uma vivida expectativa pela volta do Senhor.”(Stott, pag. 428)
Concluindo, deixo-lhes importante ensinamentos a respeito de como viviam os cristãos na era dos mártires, para que possamos nos inspirar a alcançar uma mente renovada, na fé no nosso Senhor Jesus Cristo.
Palavras proferidas por um apologista à Diogneto, na era dos martires, em Roma: (Discurso a Diogneto – 5:1-11)
“Os cristãos não se diferenciam dos demais por sua nacionalidade, por sua linguagem nem por seus costumes (…) Vivem em seus próprios lugares, mas como transeuntes, peregrinos. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos, mas sofrem como estrangeiros. Onde quer que estejam encontram sua patria, mas sua patria não está em nenhum lugar (…) Se encontram na carne, mas não vivem Segundo a carne. Vivem na terra, mas são cidadãos do céu. Obedecem todas as leis, mas vivem acima daquilo que as leis requerem. Amam a todos, mas todos os perseguem.”
BIBLIOGRAFIA
STOTT, JOHN – A mensagem de Romanos, Ed. ABU
LOPES, RUBENS – Crônicas Escolhidas, Núcleo de Estudos Batista
SHELLEY, BRUCE L – História do Cristianismo, Ed. Shedd
BRUCE, A. B. – Treinamento dos Doze, Ed. Arte Editorial
KIVITZ, ED RENÉ – Outra espiritualidade, Ed. Mundo Cristão
GONZALEZ, Justo L., A era dos Mártires, Vida Nova, 1980.
Bíblia de Estudo, SHEDD
Bíblia de Estudo de Genebra, Ed. Sociedade Bíblica do Brasil – Cultura Cristã.